Obstáculos artificiais causam prejuízos à ictiofauna do Rio Doce.

Publicado em: 31/01/2019

No período da Piracema vários tipos de pesca são proibidos.

O período da Piracema chegou e trouxe com ele uma preocupação para os pescadores do território de Rio Doce, Santa Cruz do Escalvado/Chopotó. É que sem o fenômeno, as poucas espécies remanescentes à lama (ou proveniente dos afluentes do rio Doce) não conseguirão se perpetuar na região.

Em 05 de novembro de 2015, data do rompimento da barragem de Fundão (Mariana), a  avalanche de lama matou cardumes inteiros que subiam para a montante em busca de locais apropriados para a desova e fecundação. Desde então, os poucos peixes migratórios encontrados no trecho do rio Doce, próximo ao território, não tiveram a chance de fazer o caminho natural para a reprodução.

Enquanto a Fundação Renova busca cumprir a meta de dragar um grande volume de rejeito (lama) dos 400 metros próximos à barragem, para que a Hidrelétrica volte a operar, o nível do lago se encontra baixo, não alcançando o tubo que leva a água para a “escada de peixes”, que está seca desde a data do rompimento (há três anos).

Outro fato preocupante foi a instalação, pela Fundação Renova, de três barramentos acima da Hidrelétrica. Estes barramentos têm como objetivo conter o rejeito que desce no leito do Rio para que ele não ocupe os 400 metros e não prejudique o serviço de limpeza do local.    

“Desde o dia 05 de novembro de 2015, só se fala em trabalhos para a retirada de rejeitos do Rio, porém estão se esquecendo das consequências do desastre para a ictiofauna. Nada foi feito para ajudar os peixes neste período da Piracema. A escada da UHE Risoleta Neves só funciona com o reservatório cheio, ou seja, desde o desastre, os peixes não conseguem transpor a barragem e são forçados a fazer a desova em local não apropriado”, disse o biólogo Frederico Nascimento Silva e Lima, que é morador do território.

“Outro problema que está dificultando a subida dos peixes é a construção de três barramentos à montante da UHE Risoleta Neves. Desta forma, deixo aqui minha indignação em relação ao descaso da Fundação Renova com o meio ambiente: as mineradoras causam o maior impacto ambiental da América Latina e a Fundação Renova continua causando outros impactos sem se preocupar com o futuro, tendo em vista que, este problema pode causar a extinção de espécies no rio Doce”, completou Fred.

O ciclo de reprodução dos peixes de Piracema geralmente acontece todos os anos e representa um exemplo de luta pela vida. Os peixes migratórios que não amadurecem seu processo hormonal, consequentemente não se reproduzem, o que não contribui para a perpetuação da vida. Até o momento, não há conhecimento de resultados dos monitoramentos dos peixes que voltaram a aparecer nos últimos anos.  

O biólogo e professor, Samuel Gomides, que já participou de alguns trabalhos na região da bacia do rio Doce, enviou suas considerações a nossa reportagem.

“É difícil saber o tamanho do impacto real na biodiversidade, porque faltam pesquisas básicas para saber a composição da fauna e flora ao longo de todo o curso do Rio, antes e depois do acidente. A ciência no Brasil não é e nunca foi uma prioridade para nenhum governo. Logo, respostas para catástrofes dessa magnitude são sempre especulativas. São necessários anos de pesquisa para oferecer respostas seguras sobre este acidente de proporções colossais”, disse ele.

Samuel também aponta a demora em dar início aos estudos de monitoramento de fauna ao longo do rio Doce como outro problema. “Ocorreu uma demora imensa para começar de fato os trabalhos de monitoramento de fauna para avaliar todos os prejuízos ambientais. O rio Doce tem mais de 100 espécies de peixes (mais espécies que em toda a Grã-Bretanha). Algumas dessas espécies já eram ameaçadas de extinção antes da tragédia. Não saberemos como estão atualmente as populações remanescentes, sem que haja intenso e contínuo trabalho de pesquisa acadêmica na área. Provavelmente espécies que nem eram descritas para a ciência foram extintas”.

“Acredito que a modificação das próprias características físico-químicas da água afetou e afetará as espécies remanescentes. Certamente a criação de barragens artificiais que não faziam parte do cenário natural é um fator estranho a mais para dificultar o comportamento natural das espécies. Caso esses anteparos artificiais prejudiquem a reprodução das espécies, futuramente haverá redução da população de peixes, e até mesmo extinção desses organismos”, completou Gomides.

O ictiólogo Luiz Fernando Salvador Junior, que também já desenvolveu trabalhos no território, externou seu ponto de vista. “O estoque de peixes migradores no reservatório e a montante do lago certamente é muito reduzido. A escada de peixes da UHE Risoleta Neves funcionando nas melhores condições, ainda está muito longe de representar o papel que o Rio, antes do barramento, exercia para migração dos peixes. Após passar pelo mecanismo de transposição da hidroelétrica, os peixes encontram uma massa de água estagnada acumulada ao longo do corpo do reservatório. Muitas vezes, estes peixes não encontram o fluxo para subir o Rio e consequentemente não alcançam os locais de desova”.

“Acredito que não existam populações de peixes migradores devidamente estabelecidas no lago, principalmente nesta condição pós desastre. A probabilidade de ocorrência é maior para as espécies sedentárias como tilápias, traíras e carpas; menos exigentes e adaptadas ao modo de vida em ambientes severamente impactados pelo homem. Deste modo, os estoques de peixes migradores confinados a montante do reservatório que já eram imensamente reduzidos, tendem a depreciar ainda mais. Os grandes migradores que precisam do Rio desobstruído para realizar a reprodução realmente tendem a desaparecer”, salienta  Luiz Fernando.

Impedir que ocorra o fenômeno da Piracema não significa só destruir uma parte significativa da ictiofauna, significa eliminar fatores importantes para a economia das regiões ribeirinhas, como a pesca profissional e de subsistência, e o turismo.

Posicionamento da Semad

A Secretaria de Estado de Meio Ambiente e Desenvolvimento Sustentável (Semad) esclarece que:

As operações da Usina Hidrelétrica de Candonga estão suspensas desde o rompimento da barragem de Fundão. Como consequência, o sistema de transposição, “escada” de peixes também está inoperante.

À montante da UHE Candonga também foram construídos três barramentos pela Fundação Renova para contenção de rejeitos, que deverão ser considerados em qualquer novo projeto de transposição de peixes.

Diante dessa situação, o assunto será levado pela Semad para a próxima reunião da Câmara Técnica de Conservação e Biodiversidade (CTBio) e da Câmara Técnica de Gestão de Rejeitos e Segurança Ambiental (CT-GRSA) do Comitê Interfederativo (CIF) para que sejam discutidos propostas de ações a serem realizadas pela Renova.

Reforçamos que a Semad discutirá nas Câmaras Técnicas a melhor forma para evitar danos à ictiofauna da região.

A Semad também nos encaminhou nota da Fundação Renova sobre o assunto: “A Fundação está estudando uma forma alternativa de assegurar a transposição de peixes, o que deve ser previamente alinhado com o Consórcio Candonga, e em seguida comunicaremos à Câmara Técnica sobre a solução técnica a ser implementada. Para tanto, solicitamos um prazo de 15 (quinze) dias".

Escada de peixes da UHE Risoleta Neves

De acordo com informações do site da UHE Risoleta Neves, o Estudo de Impacto Ambiental (EIA) realizado em 1997 apontou que na área de instalação da Hidrelétrica, ocorriam processos migratórios de peixes e que seriam interrompidos pela implantação da barragem. Tal fato justificou a implantação de um sistema de transposição de peixes (STP).

Esse sistema (escada) consiste na atração dos peixes migratórios que é feita pela turbulência da água que passa pela escada. Ao subir a escada, os peixes passam para uma caçamba, onde são identificados e transferidos para caixas climatizadas localizadas na carroceria de um caminhão. Esses peixes são levados á montante do barramento e soltos, para dar continuidade a sua migração.

Tendo em vista, principalmente a conservação das espécies de peixes migradoras, nativas da bacia do rio Doce, este trabalho era realizado no período de Piracema.

Piracema

O fenômeno da Piracema se inicia geralmente junto com as chuvas, a partir do mês de novembro e vai até o final de fevereiro do ano seguinte.  Neste período, os peixes sobem até as cabeceiras dos rios, nadando contra a correnteza para realizarem a desova e a reprodução.

Os peixes de Piracema, conhecidos também como migradores, necessitam fazer um esforço físico intenso para a subida ao rio. Durante o trajeto, há vários obstáculos naturais a serem vencidos por eles, como corredeiras e cachoeiras.  Isso aumenta a produção de hormônios e queima de gordura, melhorando o processo reprodutivo. Alguns chegam a nadar mais de 100 quilômetros em poucos dias.

Fatores como temperatura da água (entre 26 e 28 graus), enxurradas que aumentam o nível da água e a ampliação da quantidade de horas de luz por dia, estimula a hipófise (órgão que comanda todo o processo de reprodução) a intensificar a produção de hormônios.

Antes da Piracema a natureza já emite sinais, que são percebidos pelos peixes, de que a estação favorável à reprodução está para chegar. Dias quentes, chuvas frequentes e água mais oxigenada fazem com que peixes machos e fêmeas dispersos pelos rios se agrupem em grandes cardumes preparando-se para a subida.

Nas cabeceiras, eles encontram condições ambientais adequadas para desovar. As águas  turvas ajudam a protege-los contra os predadores. Nesses locais, os animais chegam maduros e prontos para o acasalamento. A fecundação dos peixes é externa e a grande concentração de machos e fêmeas aumentam as chances de fertilização no ambiente aquático.

Cada espécie de peixe necessita de um determinado espaço, chamado de amplitude migratória, para conseguirem chegar ao estágio de reprodução. Superando todos os desafios durante o percurso rumo à reprodução da vida, em exaustão, as fêmeas amadurecem os hormônios e liberam os ovos na água, enquanto os machos derramam o sêmen. Acontece então a fecundação. Os ovos lançados pelas fêmeas variam entre as espécies. Uma fêmea de dourado com dez quilos pode desovar um milhão e quinhentas mil ovas.

Levados pela correnteza, os ovos fecundados eclodem (nascimento dos peixes) cerca de 20 horas após a desova. Os alevinos (larvas de peixes) nascem com uma reserva de nutrientes (saco vitelino) que dura até os três primeiros dias de vida. Atingindo o grau de maturação para reprodução, repetirão o mesmo ciclo de seus pais.

 



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