Jubileu de Sant’Ana do Deserto: fé e cultura popular tomam conta de distrito de Rio Doce

A comunidade de Santana do Deserto, distrito de Rio Doce, encerrou no último fim de semana de julho mais uma edição do tradicional Jubileu de Sant’Ana. Realizada há décadas, a festa religiosa é marcada pela devoção e pela união das famílias da região.

Durante 10 dias, moradores e visitantes percorreram a pracinha que liga a comunidade ao Santuário, construção dedicada à santa. Missas, procissões, cantorias e comidas típicas marcaram a programação.

Foto: Mariana Duarte/ Ascom Rosa Fortini

Reencontro

Para muitos moradores, o Jubileu de Sant’Ana vai além da religiosidade. É um momento de reencontro com as raízes e fortalecimento dos laços comunitários. Camila Ribeiro, moradora local  e participante assídua da celebração, reforça esse sentimento:

“O Jubileu tem um significado muito especial para mim, para minha família e para toda a comunidade. É um tempo de renovação da fé, de encontro com as nossas raízes e de partilha com os amigos e vizinhos. A devoção à Senhora Sant’Ana nos une, fortalece nossos laços e mantém viva uma tradição que passa de geração em geração.”

Camila também destaca como a fé se entrelaça com a memória afetiva e familiar. Um dos momentos mais marcantes para ela aconteceu no ano passado, quando teve a oportunidade de viver uma experiência única ao lado da mãe.

“Eu e minha mãe, Dora, tivemos a honra de coroar Senhora Sant’Ana. Foi um momento único e inesquecível. Nós duas temos uma devoção muito grande por Senhora Sant’Ana, e poder prestar essa homenagem juntas foi emocionante”, conta.

Camila e sua mãe, Dora. Foto: Arquivos de Camila Ribeiro.

Fé e tradição

As atividades do Jubileu começaram oficialmente no dia 13 de julho, com a Caminhada da Fé e Devoção. Porém, um dos momentos mais marcantes da programação foi a realização da missa seguida do tradicional levantamento do mastro, realizado na noite de sexta (25).

Levantamento do mastro em 2025. Foto: Mariana Duarte/ Ascom Rosa Fortini

A missa presidida pelo padre Ronaldo Gomes Chaves, de Viçosa, ao lado do padre João Duarte, responsável pelo Santuário, reuniu um grande número de fiéis. O momento foi marcado por cantorias e um emocionante depoimento de fé.

Dona Maria Lúcia Ferraz, (também moradora do local) subiu ao púlpito para compartilhar sua devoção à padroeira. Em seu relato, falou sobre a força da fé em sua vida e em seu casamento. “Sou casada há 55 anos. Uma união baseada na Eucaristia e na fé em Sant’Ana do Deserto”, afirmou, emocionando o público.

Dona Maria Lúcia Ferraz ao lado do Pe. João Duarte. Foto: Mariana Duarte/ Ascom Rosa Fortini

Após a missa, o padre João Duarte conduziu o ritual do levantamento do mastro. Com a ajuda dos fiéis, a imagem de Sant’Ana do Deserto foi colocada no topo de um mastro enfeitado com fitas coloridas. Em seguida, o mastro foi fincado no chão, em um gesto simbólico de fé e devoção.

A cerimônia emocionou os presentes, que acompanharam o ato ao som de músicas religiosas tocadas por uma banda formada por jovens da comunidade: a União Musical Yas Morais, criada a partir de experiências musicais promovidas pelo Grupo Semear.

Banda União Musical Yas Morais. Foto: Mariana Duarte/ Ascom Rosa Fortini

Mais que uma festa

O Jubileu é um tempo de reencontro. Romeiros enfrentam longas caminhadas até o santuário. Filhos e filhas da terra voltam para casa para celebrar a fé em Sant’Ana. A comunidade se une para organizar o evento. Já comerciantes, locais e de outras regiões, participam da festa em busca de boas vendas e novas oportunidades.

Entre os muitos participantes do Jubileu de Sant’Ana, está Dona Geralda Aparecida Gomes, de 64 anos. Moradora de Divinópolis (MG), ela trabalha com a venda de artigos religiosos e participa da festa há duas décadas, motivada pela fé e também pela oportunidade de comércio.

“Para mim é tradição. Já faço aqui há uns 20 anos, sempre venho. A gente vem pela fé, pelo lugar que é muito gostoso, muito aconchegante, e também porque dá pra fazer um bom negócio. Além disso, é um trabalho que eu amo: vender meus artigos religiosos”, contou.

Dona Geralda Aparecida Gomes. Foto: Mariana Duarte/ Ascom Rosa Fortini

Sebastião Geraldo da Silva, conhecido como Tião, é uma das figuras mais tradicionais da Festa de Sant’Ana. Há mais de 12 anos, o comerciante ocupa o mesmo espaço na celebração, onde trabalha com a família, unindo fé e comércio popular.

“Trabalho há mais de 12 anos no mesmo lugar nessa festa maravilhosa que é a Festa de Santana, primeiro pela devoção e depois pelo interesse comercial. Tenho na veia o sangue de comerciante, filho de Geraldo Bernardo e Carmelita. Trabalho sempre com os familiares. Não posso deixar de relatar que tenho um suporte muito grande dos meus familiares”, destaca.

Foto: Mariana Duarte/ Ascom Rosa Fortini

Entre lama e fé

Desde o rompimento da barragem de Fundão, em 2015, a rotina de Santana do Deserto nunca mais foi a mesma. O medo passou a habitar o dia a dia dos moradores, principalmente por conta da proximidade com o Lago de Candonga — onde foi construída a UHE Risoleta Neves, que hoje armazena milhares de metros cúbicos de rejeitos de minério.

A insegurança diante da possibilidade de um novo desastre afeta o modo de trabalhar, circular e até de rezar.

“Então, assim, a gente fica preocupado. A gente trabalha preocupado. E, no dia a dia normal, eu tenho uma preocupação muito grande com a comunidade Santana do Deserto e com a comunidade do Merengo”, desabafa Tião, que também é membro da Comissão de Atingidos(as) de Santa Cruz do Escalvado e Chopotó.

Esse sentimento de tensão constante também atravessa as tradições locais. A festa do Jubileu de Sant’Ana, que há gerações une fé, cultura e reencontros familiares, foi diretamente impactada. Nos primeiros anos após o crime ambiental, muitos moradores deixaram de participar — uns por medo, outros por estarem deslocados ou emocionalmente abalados.

“Isso afetou a comunidade. O medo é iminente, né? Eu trabalho preocupado, se isso estourar e descer, aquele mundaréu de água, lama, por cima de todos que estão ali”, confessa o comerciante.

É inegável que, aos poucos, a festa foi retomando seu espaço. Mas agora ela carrega, além da devoção, um pedido coletivo por justiça e proteção. 

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Devoção e esperança também movimenta a Comunidade Chopotó
Em Chopotó, distrito de Ponte Nova (MG), também houve clima de festa com a celebração de Nossa Senhora do Carmo, padroeira local, no mesmo fim de semana. A programação oficial começou no dia 16 de julho, com o tradicional levantamento do mastro, em uma procissão que saiu da casa do Sr. Abílio em direção à capela, onde fiéis carregaram a imagem da santa.

Durante todo o mês de julho, houve homenagens à padroeira na capela da comunidade.

Veja algumas imagens da festa abaixo:

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