Enquanto o Edital Rio Doce Participativo e Comunitário (Anexo 6 do Novo Acordo) segue com inscrições abertas até 29 de julho, o Centro Rosa Fortini acompanha, desde antes da abertura do processo seletivo, associações de Rio Doce, Santa Cruz do Escalvado e Chopotó na elaboração de projetos alinhados às necessidades dos territórios.
O trabalho já resultou na identificação de mais de 70 demandas apresentadas pelas comunidades. Desse total, cerca de 60 foram estruturadas com potencial para se transformar em projetos aptos a concorrer ao edital.

Como parte desse processo, o Centro Rosa Fortini acompanha as mais de 30 associações por meio de reuniões, oficinas e atendimentos individualizados, oferecendo apoio em todas as etapas de elaboração das propostas, da identificação das demandas à estruturação dos projetos.
Além da elaboração das propostas, o Centro também tem auxiliado as associações no cadastramento junto ao sistema da Fundação Banco do Brasil, etapa indispensável para a participação no edital. É nesse momento que as organizações regularizam seu cadastro e habilitam o CNPJ para a submissão dos projetos.
Trabalho e renda
O resultado desse trabalho pode ser observado nas prioridades definidas pelas próprias comunidades. As propostas abrangem iniciativas voltadas à produção agropecuária, à comercialização, à aquicultura e à pesca, com forte foco na geração de renda e no fortalecimento do empreendedorismo local.

Doce à produção
Em Matadouro (Rio Doce), por exemplo, as ideias elaboradas pelas associações refletem justamente a busca por oportunidades de geração de renda. Nesse contexto, os projetos priorizados pela Associação dos Agricultores Familiares do Matadouro e Região (AFAMAR) estão voltados ao fortalecimento da agropecuária local, com propostas que vão desde a construção de um abatedouro até o beneficiamento de hortifrutigranjeiros e a produção de ovos.
Segundo Mauro do Carmo, tesoureiro da AFAMAR, muitas dessas iniciativas têm origem na experiência das mulheres da comunidade. “As mulheres sempre estiveram mais envolvidas com as festividades culturais e com o trabalho na roça. A partir dessa união, surgiu a ideia de um pequeno grupo começar a fazer doces e vender para as escolas. Com o passar do tempo, as escolas deixaram de recomendar esses doces para as crianças, e o grupo precisou interromper a produção. Mas a necessidade de complementar a renda da família continuava”, relata.
Ele explica que, diante desse cenário, a comunidade passou a buscar novas alternativas produtivas, o que levou à criação de atividades ligadas à avicultura, como a produção de ovos e a criação de galinhas. Com o aumento da produção, também surgiram desafios relacionados ao escoamento e à estrutura necessária para comercialização, o que reforçou a importância de novos projetos.
“Após a possibilidade de se inscrever no edital, reforçamos a ideia de ampliar as plantações de hortaliças e frutas, para também gerar trabalho e agregar renda familiar”, conta. E destaca: “Os três projetos são voltados à melhoria dos espaços, contribuindo para o fortalecimento da agricultura familiar e o desenvolvimento produtivo local”.
Tradição que inspira
Em Santa Cruz do Escalvado, na Comunidade Florestinha, as propostas contemplam iniciativas voltadas ao fortalecimento da pesca, do artesanato e à criação de tilápias. O foco também é gerar trabalho e renda para a comunidade.
Segundo Rosane Gomides (Rose), presidente da Associação dos pescadores e faiscadores tradicionais Grupo Florestinha, as ideias surgiram de forma natural, inspiradas nas atividades que sempre fizeram parte da rotina da comunidade. “É o que nós sabemos fazer: o ouro, o peixe e o artesanato. Então, não foi difícil, porque é isso que nós sabemos fazer”, explica.

Para Rose, embora a criação de tilápias em tanques não substitua a pesca tradicional no rio, ela representa uma alternativa para preservar esse modo de vida e recuperar parte da autonomia financeira perdida após o rompimento da barragem.
“Foi uma coisa muito natural para nós montar esses projetos, porque essa era a nossa vida. A gente tenta recuperar isso agora, não só porque é o que a gente sabe fazer, mas também para manter a nossa tradicionalidade. Criar um peixe num tanque não tem nada a ver com a pesca no rio, mas é uma alternativa. E também é uma forma de tirar um pouco de renda, porque hoje nós não temos renda nenhuma”, acrescenta.
É importante observar que apesar de a predominância entre os temas revelar uma das principais preocupações dos territórios atingidos: recuperar as oportunidades de trabalho e renda comprometidas pelo rompimento da barragem de Fundão, há também iniciativas voltadas à cultura, ao lazer e ao fortalecimento da vida comunitária.
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Texto: Mariana Duarte (Ascom Rosa Fortini)



