Dez anos do rompimento de Fundão: comunidades mantêm viva a memória e a luta por justiça

Às 16h20 de 05 de novembro de 2015, uma década atrás, o rompimento da barragem de Fundão, em Mariana (MG) provocou o maior desastre socioambiental da história do Brasil, transformando radicalmente a vida de milhares de pessoas.

A gente tinha o rio

No território de Rio Doce, Santa Cruz do Escalvado e Chopotó, onde os rios Piranga e Carmo se encontram para formar o rio Doce, as marcas da lama ainda são visíveis e sentidas com bastante pesar pelos moradores.

“Se a gente estava sem grana, a gente ia para o rio. E dali tirava o que a gente estava necessitando. Todos nós, independente de ser pescador, faiscador, artesão… todos gostavam e tinham direito [de estar no rio]. Hoje, a gente não tem mais o direito de ir para o rio e fazer qualquer coisa, nem o lazer mais, porque a gente não confia, não tem a confiança”, desabafa Maria da Penha Rocha, moradora de Porto Plácido, Santa Cruz do Escalvado.

O lago e o rejeito

Um dia depois do rompimento da barragem em Mariana, na manhã de 6 de novembro, os rejeitos alcançaram a região da Usina Hidrelétrica Risoleta Neves, a Candonga. Ali, até hoje, permanecem retidos cerca de 10 milhões de metros cúbicos de lama. Antes do rompimento, a água do lago era utilizada pelas comunidades locais para a agricultura e fazia parte da identidade cultural e do modo de vida das famílias.

Hoje, o que antes significava sustento e pertencimento, agoniza sob a incerteza da reparação.

“Minha propriedade ficou sem renda. Eu só tenho duas águas: a água do poço artesiano, ele está a menos de 6 metros de distância do lago e o lago, eu não tenho outra água”, expõe Márcio Martins, produtor rural e proprietário do Sítio Aguiar, localizado a apenas cinco metros do Lago de Candonga.

Pesca em risco

A enxurrada de rejeitos percorreu centenas de quilômetros, destruiu comunidades inteiras, comprometeu modos de vida e atingiu cerca de 1,6 milhão de pessoas, entre Minas Gerais e o litoral norte do Espírito Santo. Além do impacto social, o meio ambiente foi profundamente afetado. A pesca tornou-se um desafio: o alimento que antes sustentava famílias agora é motivo de desconfiança.

“Não acredito que ainda seja possível pescar no Rio Doce. Os peixes apresentam cinco tipos de contaminação, tornando-os inviáveis para consumo. Além disso, a qualidade da água varia muito: no período de seca, o pH está baixo, e durante as chuvas, muito elevado. Infelizmente, muitos não acreditam que o rio voltará ao normal”, desabafa José Márcio Lazarini (Marcinho), um dos fundadores da Associação dos Pescadores de Rio Doce.

Sem poder exercer seus ofícios, pescadores e faiscadores lutam não só por indenizações, mas por reconhecimento e reparação justa. 

Por trás dos anzóis, bateias, das peneiras e das margens do rio, há saberes tradicionais e uma relação ancestral com o território. 

Dez anos depois, o povo que vivia e ainda tenta viver do rio Doce, pede reparação. E as comunidades, que nunca deixaram de lutar, continuam mostrando que memória também é forma de resistência.

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Texto: Mariana Duarte, com apoio de Thalita de Oliveira (Ascom Rosa Fortini)

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