Cientista Político Rudá Ricci fala sobre o Termo de Acordo da Barragem do Fundão.

Publicado em: 06/09/2018

No último dia 31 de Agosto, no prédio da sede do Ministério Público Federal em Minas Gerais, atingidos pela barragem de Fundão (aquele desastre na barragem da Samarco situada em Mariana), o Ministério Público. a Fundação Renova e o Centro de Formação Popular Rosa Fortini assinaram o Termo de Acordo para Disponibilização de Assessoria Técnica Independente nos municípios de Rio Doce, Santa Cruz do Escalvado e distrito de Chopotó.  

Trata-se de uma assessoria para os atingidos se prepararem, se organizarem e acompanharem a evolução das ações de reparação dos danos causados pela tragédia que os abateu.

            O Cientista Político Rudá Ricci falou ao Centro Rosa Fortini sobre a assinatura do Termo de Acordo:

            "No ato de assinatura deste Termo, o coordenador dos atingidos na região, Antonio Carlos da Silva fez um breve discurso, muito   emocionado, refletindo sobre este passo  para reconquistarem o que perderam. Uma parte de seu discurso me chamou a atenção, em especial porque acompanhei a força dos atingidos da região nos últimos meses, seu engajamento e firmeza. Antonio Carlos disse, ao final de sua  fala: "vejam os senhores que nós não trancamos rodovias, nos não ocupamos nenhuma entidade, nós dialogamos".

            Esta fala é pouco compreendida para quem desconhece o mundo rural ou a vida nos grotões do país. Um livro logo veio à minha mente, que trata desta lógica: "Os deserdados da terra", de Margarida Maria Moura. Um livro que me impressionou em virtude da escuta da autora e da lógica dos trabalhadores rurais do Vale do Jequitinhonha, também em Minas Gerais, que, expulsos de suas terras por alguns empreendimentos empresariais, recorreram à federação dos trabalhadores na agricultura, a Fetaemg. Ao se sentarem na mesa do fórum, em audiência judicial, o choque cultural despontou. Os advogados sindicais, de cultura urbana, exigiam o pagamento dos dias perdidos, como se os prejudicados  tivessem sido assalariados.Ocorre que os trabalhadores rurais rejeitaram este enquadramento. Nas entrevistas com Margarida, explicaram que se assim fossem enquadrados,nunca mais conseguiriam trabalho na região ou mesmo possibilidade de "meiar" qualquer terra. Teriam que migrar.

            Tempos depois, como assessor do Departamento Nacional de Trabalhadores Rurais da CUT, presenciei algo similar. Num congresso nacional da CUT, os sindicalistas de categorias urbanas se dividiram num embate selvagem entre duas correntes sindicais, sendo uma delas .Ficava num canto, sentado, olhando seus vizinhos e compadres ajudarem o atingido para "aprender a ser camponês".

                        Ouvir Antônio Carlos despertou essas lembranças. Ele falava de um código moral, algo relacionado com a honra. Delicadamente, cobrava reciprocidade. O que poderia parecer candura, era uma exigência, uma advertência. A cultura rural tem disso. Tem relação com a dignidade e a honra.Não por outro motivo que as primeiras greves metalúrgicas do novo sindicalismo,no final dos anos 1970, eram recheadas de operários que  até pouco tempo viviam no meio rural e, por este motivo, cruzavam os  braços por dignidade. Lais Abramo escreveu a respeito, dez anos, sobre as greves daquele período como expressão da dignidade do trabalhador.

                        Foi isso que ouvi quando Antônio Carlos falava: ele afirmava que  naquela mesa os atingidos lutavam por sua dignidade. Espero que nós, urbanos que vamos assessorá-los, e os do MP, tenhamos compreendido o recado".

 

            * Rudá Guedes Moisés Salerno Ricci é cientista político formado em Ciências Sociais pela Pontifícia Universidade Católica de São Paulo. Mestre em Representação Sindical no Brasil pela Unicamp e Doutor em Ciências Sociais pela mesma instituição. 


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