Sem o rio Doce, atingido busca alternativa de trabalho

Publicado em: 30/08/2019

Após três anos e meio do rompimento da barragem de Fundão, pescadores e faiscadores ainda enfrentam grandes desafios nos municípios de Rio Doce, Santa Cruz do Escalvado e Simplício (comunidade rural de Ponte Nova). Sem indenização e sem o rio, muitos lutam por novas alternativas de subsistência. É o caso de Jozinei Santana Borges.
 
Insatisfeito com as atividades que desempenhava, em meados de 2014, Jozinei decidiu investir seu tempo explorando as riquezas naturais oferecidas pelo rio Doce, peixes e ouro. Foi por este trabalho que tomou gosto, pois já tinha grande intimidade com o Rio. Para ter um retorno maior, ele passou a morar às margens do rio Doce, onde tinha sua casa - um período de bambu e outro de lona. Lá ele improvisava seu fogão no barranco, almoçava e jantava, tinha os utensílios básicos para sua sobrevivência e a companhia de Nega, sua cachorra.
 
Jozinei acordava por volta das 5 horas para conferir a “linhada”- fios de náilon que amarrava à beira do Rio com chumbo e anzol na ponta. Como sua casa era construída sob um bambuzal, ele também confeccionava suas próprias varas de pesca. “Outros pescadores chegavam por volta das sete horas. Neste horário eu já estava recolhendo os meus peixes. Eles diziam que meu dia já estava garantido”, disse sorrindo.
 
Jozinei morou às margens do rio Doce até a data do rompimento da barragem da Samarco, por cerca de um ano e meio. Ele ia à cidade de Rio Doce somente para entregar os peixes encomendados, receber seu dinheiro e comprar alguns produtos básicos. “Nem o mais milionário tinha a minha qualidade de vida”, afirmou ele, lembrando com satisfação da época em que tinha uma forte convivência com o Rio.
 
A linhada e as varas ficavam armadas praticamente o dia todo. Ele sempre ficava por perto, vigiando suas armadilhas e ao mesmo tempo explorando o entorno em busca de ouro. “Eu pegava o material no meio das pedras, carregava até a beira do Rio para tirar a prova e, se fosse positiva, eu montava a banca e começava a lavar o cascalho o dia todo. Tirava uma média de 10 gramas de ouro por semana. Algumas pessoas me apelidaram de Velho do Rio”, relatou.
 
No entanto, em 05 de novembro de 2015, data do rompimento da barragem da Samarco, se viu obrigado a deixar sua casa, a se afastar do Rio, daquele lugar que tanto lhe trazia paz. Sem rumo, passou por um período difícil. Começou a distribuir currículos e chegou a trabalhar, durante 2 anos, numa das empresas terceirizadas da Fundação Renova. Com a redução dos serviços desta empresa, houve cortes no quadro de funcionários, o que novamente o deixou desempregado.
 
Hoje, Jozinei mora numa casa emprestada pelo seu tio e, há quatro meses, encontrou oportunidade para trabalhar na Cooperativa Mista de Trabalho, Produção e Agropecuária de Nova Soberbo Ltda. (Coopsoberbo), onde vem superando sua situação de vulnerabilidade e aumentando a autoestima. Na Cooperativa, ele produz diversas hortaliças e legumes, e comercializa nas comunidades mais próximas. 
 
A história de Jozinei demonstra que, às vezes, o que falta é apenas uma oportunidade. Ele é um dos atingidos do Território que ainda aguarda por uma indenização justa da Fundação Renova.
 
 



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