Dia do Pescador: uma década de resistência na bacia do Rio Doce

Em 29 de junho, o Brasil celebra o dia do pescador. Porém, para as comunidades tradicionais de Santa Cruz do Escalvado, Chopotó e Rio Doce a data vem acompanhada de dor: quase dez anos depois do colapso da barragem de Fundão, os pescadores continuam impedidos de lançar as redes, exercerem a atividade de seu sustento e ainda aguardam reparação integral.

Desde o crime ambiental, o leito do rio Doce carrega os rejeitos de mineração, histórias interrompidas e sua biodiversidade comprometida.

Para marcar o Dia do Pescador e manter vivo o debate sobre justiça e reconstrução, conversamos com Maria da Penha Rocha (Penha), presidenta da Associação de Pescadores de Santa Cruz do Escalvado; e José Márcio Lazarini (Marcinho), um dos fundadores da Associação dos Pescadores de Rio Doce. Eles relatam os desafios enfrentados, cobram mais agilidade nos processos de indenização e defendem políticas que garantam a retomada segura da pesca.

Penha – presidenta da Associação dos Pescadores de Santa Cruz do Escalvado. Foto: Mariana Duarte/ASCOM Rosa Fortini


ATI Rosa Fortini: Como a pesca fazia parte do cotidiano das famílias antes do rompimento da barragem?
Penha: A pesca fazia parte de todas as maneiras que você pudesse pensar: para a auto sustentação, para o lazer, para o modo de vida das pessoas. O rio era nossa vida, o rio era o que a gente tinha de mais sagrado.
Então, a pesca era tudo! E lá [no rio] a gente encontrava pescadores de outras comunidades, a gente se encontrava. Não tem como mensurar, a perda do rio e a perda das coisas que a gente tanto tinha prazer. Pescar para comer, pescar para vender, para complementar uma renda… eu não tenho palavras para decifrar isso para você.

ATI Rosa Fortini: Você pode descrever a importância cultural e econômica do Rio Doce para os pescadores da sua comunidade?
Penha: É o modo de vida, era o que a gente tinha, sabe? Se a gente não tivesse dinheiro para fazer outras coisas que dependessem do dinheiro, a gente tinha o rio. Se a gente estava sem grana, a gente ia para o rio. E dali tirava o que a gente estava necessitando. Todos nós, independente de ser pescador, faiscador, artesão… todos gostavam e tinham direito [de estar no rio]. Hoje, a gente não tem mais o direito de ir para o rio e fazer qualquer coisa, nem o lazer mais, porque a gente não confia, não tem a confiança.

ATI Rosa Fortini: Você considera que houve escuta e respeito com os pescadores ao longo do processo de reparação?
Penha: Eu posso dizer para você com propriedade, eu como presidente da associação de pescadores: nunca, ninguém me procurou para nos ouvir, para falar nada. Então, se houve uma escuta, foi uma escuta muito aleatória, não foi de acordo com a realidade.

Marcinho – fundador da Associação dos Pescadores de Rio Doce. Foto: Assessoria Técnica Rosa Fortini

ATI Rosa Fortini: Você acredita que a pesca no Rio Doce ainda é possível? Como está a qualidade da água e dos peixes?
Marcinho: Não acredito que ainda seja possível pescar no rio Doce. Os peixes estão com 5 tipos de contaminação, ficando inviável para consumo. Além disso, a qualidade da água no período de seca está com nível de ph baixo, já no período chuvoso, o ph está muito elevado.

ATI Rosa Fortini: Como representante dos pescadores em sua comunidade, como os pescadores enxergam o futuro do rio Doce e das comunidades que dependiam dele?
Marcinho: Infelizmente, muitos não acreditam que o rio voltará ao normal.

ATI Rosa Fortini: Qual é a mensagem que você gostaria de deixar neste Dia do Pescador, especialmente para aqueles que lutam para continuar vivendo da pesca mesmo diante de tantos desafios?
Marcinho: Minha mensagem para os pescadores é de respeito e gratidão a todos que enfrentam os rios e as dificuldades da vida com coragem e dignidade, mesmo diante de tantos desafios.
Nem sempre o que nós, pescadores, buscamos à beira do rio são apenas peixes. Muitas vezes, o que nos leva até lá é a busca por algo muito mais valioso: paz, silêncio, conexão com a natureza e com nós mesmos.

Peixe Surubim-do-Doce representa esperança

O surubim-do-doce já foi presença comum em toda a bacia do rio que leva seu nome. Era parte do cotidiano das comunidades ribeirinhas, pescado mas, também, respeitado. Um animal que representa identidade, cultura e ancestralidade para os povos tradicionais.

Os mais de 50 milhões de metros cúbicos de rejeitos de mineração que invadiram o rio Doce devastou, também, a vida dentro do rio e hoje a espécie está à beira da extinção.
No Dia Nacional do Meio Ambiente (5 de junho), a sede da OAB em Ponte Nova recebeu o encontro “Conservação do Rio Piranga e do Surubim-do-Doce: Desafios e Caminhos”. A iniciativa – articulada pelo Projeto Surubim-do-Doce, Docena Consultoria Ambiental, Comissão de Meio Ambiente da 7ª subseção da OAB e APA, reuniu pesquisadores da Universidade Federal de Viçosa (UFV), lideranças locais e a comunidade para discutir as ameaças que a mineração impõe à bacia do Rio Doce, sobretudo nas áreas de ocorrência do peixe-símbolo da região.

O encontro contou com apresentações do advogado ambiental Leôncio Barbosa; do biólogo da UFV Frederico Fernandes; do pesquisador e PhD em peixes, Jorge Dergam; além de um debate que produziu um documento e um abaixo-assinado em defesa do Piranga e de sua diversidade biológica.
A ATI Rosa Fortini participou do encontro representada por suas assessoras técnicas da área agrária e ambiental, Raíssa Santos e Victoria Mendes.

O que está em jogo não é só a preservação de uma espécie. É a permanência de um modo de vida, de uma história construída às margens do rio. E conservar essa espécie é reconhecer o direito à vida — do rio, dos peixes, das pessoas.
Surubim-do-doce. Foto: Elvira Nascimento/Revista Caminhos Gerais

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