Moradores da comunidade de Jerônimo, no município de Santa Cruz do Escalvado (MG), voltaram a denunciar o depósito irregular de rejeitos, que aconteceu em 2015, em uma área de nascente local. A denúncia foi reforçada durante a visita técnica realizada pelo Ibama, na comunidade, no dia 4 de março.
Segundo os atingidos, a comunidade questiona desde 2016 as intervenções realizadas no local e pede esclarecimentos sobre os procedimentos adotados após o rompimento da barragem de Fundão, ocorrido em 2015, em Mariana (MG). De acordo com os relatos, parte dos rejeitos retirados das proximidades da ponte do município de Rio Doce teria sido transportada e depositada em um terreno situado em Jerônimo.
Conforme levantamento produzido pelo Centro Rosa Fortini, antes deste evento, os moradores viviam de forma pacata, preservando o meio ambiente. Após o desastre, durante o período emergencial, a Samarco utilizou aproximadamente 40 caminhões para transportar toneladas de rejeitos retirados das margens do rio Doce até o que a Samarco criou como um “bota-fora” na comunidade. Para agravar a situação, existia nesta área uma nascente tradicional que foi soterrada.

O levantamento ainda aponta o estimado de aproximadamente 500 mil metros de rejeitos que foram acondicionados no local sem licenciamento ambiental e sem alvará do município. Há relatos que, durante período chuvoso, um chorume de coloração avermelhada escura aflora do empilhamento de rejeitos e percorre boa parte da comunidade até desaguar no Rio Doce.

Ação Civil Pública em 2016
A situação da comunidade de Jerônimo foi motivo de uma Ação Civil Pública em 2016 pelo Núcleo de Assessoria às Comunidades Atingidas por Barragens (Nacab) contra a Samarco.
Entre os pedidos apresentados na ação estavam:
- a suspensão imediata do depósito de rejeitos no local;
- a retirada de todo o material depositado na área da nascente;
- a realização de estudos para definir alternativas de disposição que não afetem áreas de preservação permanente;
- a escolha de um local apropriado com aprovação prévia do órgão ambiental competente;
- a regularização das intervenções ambientais realizadas;
- a adoção de medidas para controle da poeira nas estradas utilizadas pelos caminhões que transportavam o material;
- a instalação de sinalização nas vias de acesso;
- e a avaliação das residências dos moradores da comunidade.
No processo, foi argumentado que, ao retirar parte da lama, madeira e outros detritos resultantes do rompimento da barragem, a mineradora teria depositado esse material em um local inadequado, o que teria provocado novos danos ambientais, incluindo a contaminação de uma nascente existente na área.
O processo foi suspenso em março de 2017 pela 12ª Vara Federal. A suspensão ocorreu devido à existência de outra Ação Civil Pública, mais ampla, em tramitação no Tribunal Regional Federal da 1ª Região, que trata do desastre da barragem de Fundão e abrange temas semelhantes. Em outubro de 2024 a justiça decidiu encerrar o processo porque, no entender da mesma, parte dos pedidos perderam o motivo de existir, porque teria sido incluído pelo Acordo de Repactuação. Entretanto, foi interposto recurso para que a Justiça reavaliasse se de fato a Comunidade Jerônimo foi contemplada ou não pela Repactuação, no que diz respeito aos pedidos do processo.
Destruição de nascente

O tema voltou a ganhar destaque em setembro de 2025, durante o Seminário Recuperação Ambiental, organizado pelo Centro Rosa Fortini e realizado no município de Rio Doce. Na ocasião, o atingido Antônio Carlos, membro da Comissão de Atingidos(as) de Santa Cruz do Escalvado e Chopotó, voltou a denunciar publicamente a situação vivida pela comunidade.
Segundo ele, nos primeiros meses após o rompimento da barragem, dezenas de caminhões transportaram rejeitos para a área de Jerônimo.
“Nos primeiros 60 dias depois do rompimento, mais de 50 caminhões despejaram rejeito sobre uma nascente da comunidade. Hoje essa nascente está morta”, afirmou, demonstrando indignação com o que considera um caso grave de negligência ambiental.
Após a vistoria do Ibama, a moradora da comunidade, Juliana Aparecida, reforçou o medo da população em consumir a água do local que antes consideram pura. “Tem um campinho perto de uma mina e a gente ia jogar bola aqui no campinho e bebia água direto da mina. Hoje em dia a gente não pode fazer isso porque há a preocupação já que a gente não sabe qual é o grau de risco da nossa saúde, porque ninguém sabe qual é o grau de contaminação”, relatou.
Racismo ambiental
Para o coordenador metodológico da ATI Rosa Fortini, Aloísio Lopes, a situação vivida pela comunidade de Jerônimo levanta um debate mais amplo sobre racismo ambiental.

Nesses contextos, essas comunidades tendem a ser mais expostas a riscos ambientais e enfrentam maiores dificuldades para garantir reparação, proteção ambiental e acesso à justiça.
Moradores afirmam que o depósito de rejeitos em uma área de nascente da comunidade, sem diálogo adequado e sem a solução definitiva do problema ao longo de mais de uma década, evidencia esse tipo de desigualdade.
Para os atingidos, a permanência dos rejeitos no território, os danos à nascente e a demora na reparação demonstram como comunidades pequenas e rurais acabam tendo seus direitos ambientais e territoriais negligenciados.

Enquanto aguardam providências concretas das autoridades e das empresas responsáveis, os moradores de Jerônimo seguem cobrando a retirada dos rejeitos da área e a recuperação da nascente, além da reparação pelos danos sofridos ao longo de mais de dez anos.

Texto: Thalita de Oliveira
Diagramação: Nane Camargos


