Famílias que ficaram de fora do Programa de Transferência de Renda (PTR) Rural, mulheres que não se veem contempladas pelas medidas e comunidades preocupadas com a qualidade da água. Essas foram algumas das demandas apresentadas por pessoas atingidas de Rio Doce e Santa Cruz do Escalvado durante o Turno de Diálogo da 7ª Reunião do Conselho Federal de Participação Social (CFPS).

Realizado no dia 10 de setembro, em Mariana, o Turno de Diálogo é o espaço destinado à manifestação das pessoas atingidas. Durante o momento, moradores levaram aos membros do Conselho Federal problemas que, segundo eles, permanecem sem solução e cobraram respostas relacionadas às medidas previstas no Acordo de Repactuação.
Famílias que ficaram fora do PTR
A dificuldade de acesso ao PTR Rural foi uma das questões apresentadas por Maria Márcia Martins, membra da Comissão de Atingidos(as) de Santa Cruz do Escalvado e Chopotó. Ela relatou para o plenário que muitas pessoas não conseguiram realizar o cadastro dentro do prazo por causa das dificuldades encontradas no sistema de atendimento.
Segundo ela, houve filas extensas e pessoas que chegaram a dormir no local para tentar realizar o cadastro, sem conseguir atendimento. A preocupação é com as famílias que ficaram de fora do programa apesar de se considerarem atingidas.
“O sistema não pode ser maior que o direito das pessoas. Se não teve condições de atender essas famílias, essas famílias não podem ser prejudicadas”, pontuou.

Maria Márcia também chamou atenção para o Programa para Mulheres. Ela destacou que meninas que tinham 14 ou 15 anos na época do rompimento hoje são mulheres e, em muitos casos, mães de família, mas ainda estariam invisibilizadas no processo.
Lago de Candonga e fim do AFE
Silvana Arlinda Pinto, de Rio Doce, relembrou os impactos provocados pela passagem da lama no território e destacou a preocupação constante com a permanência de cerca de 10 milhões de metros cúbicos de rejeitos no lago da Candonga.
Ela também criticou o encerramento do Auxílio Financeiro Emergencial (AFE) antes da retomada das atividades econômicas que eram desenvolvidas pelas pessoas atingidas antes do rompimento. “Pedimos justiça e uma solução vitalícia”, disse.
Vanilda Aparecida de Castro, de Rio Doce, também cobrou uma solução para preservar a história da comunidade faiscadora para as futuras gerações.

Água e comunidades tradicionais
A situação da água foi outro tema apresentado. Raimundo Ribeiro, morador da Comunidade Santana do Deserto, em Rio Doce, e Rosane Gomides (Rose), da comunidade Florestinha, abordaram o assunto em suas falas.
Raimundo relatou que a lama atingiu os quintais das famílias e que a deposição de rejeitos nas proximidades da comunidade teria afetado nascentes utilizadas pelos moradores. “Até hoje nossa comunidade não foi ouvida e as obras que a gente pede não são contempladas. […] A nossa casa do rio é 50/30 metros. A lama está toda depositada lá”.

Já Rosane Gomides (Rose) falou sobre a Usina Hidrelétrica Risoleta Neves, conhecida como Candonga, ela lembrou que o lago da usina serviu como contenção para parte da lama que desceu pelo rio Doce e destacou que a questão não atingiu apenas o trabalho e a renda, mas o modo de vida das comunidades tradicionais.
“O que foi arrancado da gente não foi apenas o trabalho e o lazer, mas nosso modo de vida. Somos pescadores, faiscadores e agricultores, nós somos a memória de um território sacrificado”, declarou.
“Hoje não estou sozinha”
Ao final do Turno de Diálogo, Maria da Penha Rocha, de Santa Cruz do Escalvado, e membra do Conselho Federal, apresentou ao público os agentes territoriais que atuam nas comunidades do território de Rio Doce, Santa Cruz do Escalvado e Chopotó.
“São essas pessoas que lutam no nosso território. Hoje não estou sozinha, estou com o povo que luta”, disse, enquanto apresentava os demais participantes.

As manifestações mostraram que as demandas do território vão além das medidas financeiras. Atingidos(as) cobraram avanços no PTR, direitos das mulheres, retomada das atividades econômicas, qualidade da água e mais participação nas decisões sobre o território.


